Sentindo que estamos a sair da crise: Syriza, o placebo grego

October 29, 2015 — Leave a comment

Jornal Mapa

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Após 6 anos de imposições de austeridade os gregos foram às urnas castigar a velha plutocracia representada pelo bipartidismo da Nova Democracia e do PASOK. Ofereceram 36% dos papelinhos depositados nas urnas a uma coligação de partidos que lhes promete o fim da austeridade e a restauração da dignidade nacional. Antonis Vradis analisa as possibilidades que se apresentam aos anarquistas e demais sectores antago-nistas do espectro político grego, perante um país governado por um partido refém das suas promessas.

Se tem existido um único sentimento que descreva e que reina sobre a política na Grécia durante os seus longos anos de crise financeira, esse é o medo: medo do declínio das estatísticas fiscais; medo da deterioração dos padrões de vida que estas acarretam; medo de perder mesmo aquelas fracções de poder laboral, de liberdades políticas e de condições sociais dos quais muitos desfrutaram no país até há bem poucos anos atrás.

Daí que não seja surpreendente ver que um poder político alarmista também tenha reinado durante estes anos. Ele impôs o dogma da austeridade como única via para sair da crise à medida que moldava todo um cenário social (supostamente como resposta ao próprio medo das pessoas) através de um endurecimento do policiamento, da vilificação dos imigrantes, dos casais do mesmo sexo, dos activistas políticos… A vilificação de quem quer que seja que, resumindo, pareça sair da linha desta nova ordem social e que seja potencialmente capaz de a ameaçar. Mas as pessoas não podem manter o medo durante tanto tempo. Independentemente de tudo o resto que possa indicar, a vitória eleitoral do Syriza a 25 de Janeiro mostrou uma massa crítica que se está agora a voltar contra o alarmismo – destituindo, como fez, a coligação governamental que mais claramente seguia uma economia neoliberal e uma política radical de direita na Grécia pelo me-nos desde a queda da ditadura em 1973. O aparente volteface parece surpreendente, atingindo mesmo proporções históricas: supostamente, este é o primeiro governo de esquerda em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

Mas será isso suficiente? Seguramente, muitos daqueles que votaram no Syriza estavam determinados a ultrapassar os seus medos e a prevenir que forças maiores moldassem o rumo das suas vidas. Para muitos deles, a subida do Syriza ao poder veio demasiado tarde, já que as eleições do Verão de 2012 pareciam ser uma conjuntura ainda mais crucial para afastar a economia e a política da Grécia da doutrina da austeridade. Com cerca de um mês de governação, a esperança inicial depositada no Syriza internamente, por toda a Europa e fora dela, deparou-se com as garantias dadas internacionalmente pelos líderes do partido de que iriam gerir a crise de uma forma mais subtil e ortodoxa financeiramente do que aquela que os seus apoiantes esperavam.

Primeiro veio o medo, depois veio a sua superação – e agora parece vir a desilusão. Mas uma navegação política deste tipo faz sobressair as limitações do que é tentar produzir uma mudança ra-dical através dos meios parlamentares. Esta é uma lição que já tinha sido assimilada por aqueles que lutaram contra os efeitos da austeridade e das políticas da direita radical na Grécia a um nível de base através da instituição de bancos de tempo, cozinhas populares, clínicas auto-organizadas, projectos de solidariedade imigrante e através da criação e defesa de novos espaços públicos na cidade. Mas é impossível parar por aí – e teria sido um grande erro fazêlo. Nas semanas que se seguiram às eleições de Janeiro, tornou-se desde logo claro que o Syriza está obrigado a seguir um caminho mais convencional, financeiramente ortodoxo e complacente. Ainda assim, a simples mudança de go-verno ofereceu, ainda que mo-mentaneamente, uma agradável – e necessário, para muitos – lufada de ar fresco numa atmosfera política intoxicada pela dominação de políticas e discursos totalitários.

Mas para que as lutas e os custos sociais suportados no anos anteriores possam colher frutos, a mudança deve agora infiltrar-se no cenário político convencional. Seria simplesmente catastrófico ver partidos da velha guarda a re-gressar ao poder no seguimento de uma qualquer escorregadela futura do Syriza (ou, é claro, do Syriza simplesmente ir no mesmo caminho), se pouco ou nada mudou no terreno entretanto. Se existe um qualquer legado positivo a construir a partir deste “primeiro governo de esquerda”, este residirá numa tentativa consciente de usar o espaço político e cognitivo que ele terá de abrir para nos distanciarmos e irmos além do domínio parlamentar por completo.

Na sua essência, o caminho é bastante simples: a maneira mais efectiva de confrontar as grandes forças que tentam moldar o nosso mundo, provocando o medo no seu seio, é construindo economias e estruturas sociais de solidariedade e de afinidade política a um nível quotidiano. É por essa razão que a vitória do Syriza não é de nenhuma forma suficiente por si só. O seu governo deve agora ser forçado a conceder a margem de manobra necessária para que estes projectos floresçam: afinal de contas, tem tudo a ver com a mu-dança social radical e progressiva que defende.

Mas será que o Syriza irá mes-mo ajudar a mudar o cenário político dandolhe uma direcção mais progressiva? Penso que exis-tem duas possibilidades aqui. Mas para as compreendermos, temos de recordar, sucintamente, como o Syriza surgiu.

O Syriza disparou de pequeno partido no parlamento para titular do governo. Para aí chegar, o Syriza teve suficiente sorte num aspecto: foi pura coincidência que tenham sido os sociais-democratas do PASOK a liderar a entrada da Grécia nos seus acordos do memorando. Se, por exemplo, tivessem sido os con-servadores do Nova Democracia a estar no poder, seria altamente improvável que o fenómeno do Syriza tivesse sequer nascido. E por que é isto importante? Sim-plesmente porque demonstraque na sua grande maioria não foi o eleitorado que mudou de modo significativo, nem foi uma mobilização expressiva de base que levou o Syriza ao poder – como parece ser o caso em Espanha de momento. Pelo contrário, o Syriza preencheu principalmente o vazio da social-democracia depois da sua implosão.

O Syriza cresceu porque uma grande parte do eleitorado o concebeu como única possibilidade tangível para que uma política de tipo keynesiano pudesse ser posta em prática no seu país; uma possibilidade para que as suas condições de vida melhorassem sem que tivessem de mudar quaisquer das suas práticas diárias.

A situação pela qual passamos é, nesse sentido, historicamente irónica: uma parte da esquerda chegou ao poder menos pelo apoio de base popular e mais pelo apoio de campos específicos dentro das forças locais do capital, aquelas forças que vêem no Syriza o potencial para ser um excelente administrador do des-contentamento social. Melhor ainda: uma força que pode estabilizar a economia melhorando ligeiramente as condições dos trabalhadores e seguindo aqueles que são os princípios fundamentais das políticas de austeridade até ao momento. Este é o primeiro cenário daquilo que poderá acontecer na Grécia neste momento – naturalmente, um cenário potencialmente catastrófico que poderá mesmo ver o “primei-ro governo de esquerda” tornar-se num mero “parêntesis” (como muitos opositores de direita já lhe chamam) na dominação da política convencional por parte da direita radical nos tempos mais recentes na Grécia.

O segundo cenário é não só o mais abrangente de momento mas também o único, na minha opinião, que poderá oferecer a esperança de conquistas tangíveis por parte do campo político progressivamente radical, ou seja, o nosso movimento social antagonista mais amplo – os anarquistas e inclusive a esquerda radical. Neste cenário, o governo liderado pelo Syriza seria levado pela base popular a implementar o que pro-meteu antes das eleições: livrar-se de algumas unidades de polícia fascistas (a DELTA e a MAT – polícia anti-motim); restaurar alguma dignidade básica no campo laboral (aumentando o salário mínimo e fazendo acordos colectivos de trabalho); fechar os campos de concentração para imigrantes e dar documentação a todos estes que se encontrem no país; restaurar o asilo académico (impedindo a polícia de entrar nos espaços universitários). Estas mudanças são apenas indicativas mas acabam por ser fundamentais – e sãono devido à razão abaixo indicada.

As condições que trouxeram turbulência e uma grande confusão ao cenário político con-vencional na Grécia não são exclusivamente gregas, é óbvio. Do desaparecimento de 43 estudantes mexicanos às desconcer-tantes estatísticas de seis mortes por dia às mãos da polícia no Brasil, do impressionante desenvolvimento de forças radicais islâmicas no Médio Oriente, norte de África e noutros lugares, chegando até solo europeu, à imple-mentação da doutrina da austeridade – inclusive em Portugal, é claro –, muitos de nós estamos agora unidos sob o peso de viver sujeitos a forças que excedem colossalmente a nossa capacidade de as compreender e muito menos de actuar contra elas. Nesse sentido, a sociedade gre-ga tinha-se já juntado energicamente a este aparente momento global em que os caminhos cru-zados e a verdadeira força do poder são postos a nu. Esta mudança não reside no volume do dito poder, mas na sua opacidade: o que antes se deu à porta fechada encontra-se agora aí, a nu, para toda a gente ver. Mas o facto de podermos ver tão claramente o que está a acontecer não poderá deixar de ser benéfico a longo prazo. Tanto o estado social como o seu sucessor neoliberal morreram diante dos olhos de todos. E se as sociedades atravessam algo parecido com “os cinco estágios da dor” devido à perda do anterior modelo do estado social, então, seguramente, devemos estar bem próximos do fim: saímos da negação e da raiva para algo entre a depressão (que era onde a Grécia se encontrava até agora) e a negociação (que é o que deverá estar a acontecer agora com o Syriza). Muito em breve, penso, devemos estar a chegar ao estágio final da aceitação: aceitaremos finalmente que este sistema há muito deixou de funcionar e seguiremos com as nossas vidas.