O Syriza não vai te salvar

February 12, 2015 — Leave a comment

Revista da Biblioteca Terra Livre

No dia 28 de dezembro, apenas horas antes da votação presidencial que levou a Grécia às eleições antecipadas, a tropa de choque espancou e prendeu grevistas enfurecidos no centro de Atenas. Notícia horrível, não é mesmo? A austeridade dolorosa e a sempre crescente tensão social fizeram com que a circulação de imagens deste tipo aumentasse astronomicamente.

Nesse momento, estas imagens certamente igualaram-se às ilhas de ruelas de paralelepípedo, ao pôr do sol romântico sobre o mar Egeu e todos os clichês imagináveis antes da Grécia estar no olho da mais recente tempestade financeira, há uns quatro anos e meio.

Mas aqui temos uma notícia preocupante para quem está inspirado por uma possível vitória do Syriza: neste episódio, a tropa de choque foi chamada para proteger um evento co-organizado pela rádio oficial do partido, a Sto Kokkino Fm. A rádio organizou o evento em um livraria no centro de Atenas em um domingo, apesar da lei recém-introduzida que permite o comércio aos domingos, vista como uma desregulação do mercado feita sob pressão dos credores internacionais da dívida grega. O Syriza até então havia apoiado as mobilizações contra a medida, que favorecia imensamente as grandes lojas de comércio em detrimento dos pequenos comerciantes. Mas não dessa vez. Neste dia, os trabalhadores de livrarias chamaram uma greve e uma manifestação do lado de fora da livraria. Seus proprietários chamaram a polícia – e o resto é história.

Para o partido que aspira vencer as eleições do próximo mês [atualizando: o Syriza venceu as eleições] e formar o primeiro governo de esquerda no país e na União Europeia, isto não é um bom passo a frente. Com certeza, a pressão internacional para harmonizar as políticas do partido com a ideologia da austeridade, dominante na Europa, tem sido imensa. E, em muitos aspectos, a tarefa posta às mãos do Syriza é injusta com eles. Era um pequeno partido de esquerda, predominantemente intelectual, que teria dificuldade para entrar no parlamento há cinco anos. Agora, foi catapultado para a linha de frente na disputa para o governo em um momento em que os riscos não poderiam ser maiores. Talvez compreensivelmente, as esperanças são elevadas demais.

Uma vitória do Syriza livraria o povo grego do governo mais conservador desde o fim do regime militar em 1974. A criação de campos de detenção de imigrantes, o despejo de squats políticos e os acordos feitos por baixo da mesa com o notório Aurora Dourada são pequenas mostras das políticas ideologicamente enviesadas (de caráter profundamente conservador), que vão muito além de enfrentar os problemas financeiros do país. Mas o Syriza pode com sucesso carregar o fardo de ser uma alternativa viável? Não se trata de um contexto em há uma massa crítica dentro do país que está por detrás dessa mudança. Mesmo se o Syriza vencer as eleições venceu, os votos dados a ele serão motivados principalmente pela insatisfação, pelo desespero e pelo desejo de ver qualquer coisa que seja diferente dos governos do passado recente, que respeitaram a austeridade.

Mas o Syriza não terá uma folha em branco, nem se trata necessariamente de uma mudança progressista na sociedade grega – a mudança até agora tem sido tragicamente para a direita. A ascensão do Aurora Dourada, a xenofobia, a apatia política nos mostram que simplesmente há algumas pessoas que não querem ser salvas. Porém, até para aqueles que, colocando suas esperanças na vitória eleitoral de um partido pressionado para fornecer uma viável válvula de escape para o status quo grego, isto não é muito sábio. A rádio do Syriza emitiu um comunicado lamentando os acontecimentos do domingo, mas isso foi muito pouco e veio tarde demais. Também foi um lembrete, que veio bem cedo, para lembrar que nenhuma mudança de longo prazo virá de partidos políticos se alternando no poder.

Para nós que estamos insatisfeitos com as políticas de austeridade e suas auxiliares, as política de extrema-direita, que vem se espalhando por todo nosso continente, seria mais sensato fortalecer e desenvolver estruturas econômicas e de solidariedade que sobreviverão às oscilações do cenário político institucional. O Syriza pode nos salvar durante algum tempo, mas ele não irá salvar ninguém – esta tarefa deve ser assumida por todos e cada um de nós.

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*Antonis Vradis é membro do coletivo Occupied London e do projeto The City at the Time of Crisis. Texto publicado originalmente no site opendemocracy.net, traduzido para o português por Biblioteca Terra Livre.